Preticor e exposição


Existe quem diga que escrever combina com café. Eu entendo a lógica: o ritual, o calor, o amargor que desperta — talvez se eu gostasse de café pensaria desta forma, mas como não é o caso.... Para mim, a escrita sempre encontrou mais sentido combinado a chuva, com aquele som que pra mim é melhor que qualquer música, é um dos sons da própria natureza. Também gosto daquele cheiro que surge quando a água toca o chão seco. Muita gente acha que é o cheiro da chuva, mas ele vem da terra — dos fungos e bactérias que vivem ali, liberando substâncias quando a umidade chega. É curioso pensar que algo tão microscópico seja capaz de provocar uma sensação tão profunda. 

Talvez por isso eu tenha começado a escrever agora. O irônico é que bastou eu começar a escrever para a chuva parar o que é clássico do verão: chega intensa, promete alívio, mas vai embora rápido, deixando apenas o abafamento — aquele peso no ar que parece que até pra respirar é difícil, você se sente mais esgotado e com uma preguiça fora do comum, quando não vem acompanhado uma dor de cabeça desagradável. 

E é nesse intervalo, entre o que começa e o que se dissolve, que surge a pergunta inevitável: o que, afinal, eu tenho para contar?

Nos últimos meses, imaginei que escreveria mais por aqui. Planejei textos semanais, uma constância quase ideal. Mas não foi assim, afinal a vida raramente respeita os cronogramas que criamos para nos sentirmos organizados. Ainda assim, algo vem mudando, aos poucos..

Ontem, por exemplo, postei meu primeiro vídeo no TikTok. E, junto com o botão de “publicar”, veio um calafrio. Uma sensação estranha de que aquilo não estava certo. Como se me expor fosse, de alguma forma, vergonhoso. Como se alguém fosse aparecer para dizer: “Por que você está fazendo isso?”. É quase engraçado perceber como essa visão existe dentro da gente — esse juiz interno que associa tentativa, visibilidade e autenticidade a algo constrangedor.

Mas talvez o mais curioso seja justamente entender de onde vem esse sentimento. Não é medo de errar apenas, é medo de ser vista tentando, de não estar pronta, de não ter autorização. E quando a gente percebe isso, algo começa a mudar, porque passa a ficar claro que o problema não está no ato de criar, mas na forma como aprendemos a nos observar.

Tenho pensado muito sobre isso ao revisitar quem eu fui. Esses dias encontrei um caderno antigo meu. Nele, havia uma página inteira com listas de coisas que comecei e abandonei no meio do caminho. Projetos interrompidos, ideias deixadas para depois, vontades que perderam fôlego, uma a uma. Não acho que senti culpa ao ver aquilo, mas frustração. Frustração por ter enganado a mim mesma. 

Percebi que sempre comecei com empolgação, mas nem sempre com consciência. E talvez seja essa a diferença agora.

Não é que o resultado tenha deixado de importar, mas ele parou de ser o centro. O processo ganhou espaço. Constância, sim, é necessária — mas não como um gesto mecânico. Constância sem entendimento vira repetição vazia. É como decorar um conteúdo apenas para passar na prova: funciona no curto prazo, mas não constrói nada por dentro.

Com hábitos é igual. Não é sobre colocar um alarme e cumprir tarefas no automático. É sobre entender por que aquela ação existe na sua vida. O que ela sustenta. O que ela transforma. Seja escrever, gravar vídeos, mudar a alimentação, aprender algo novo — tudo precisa de sentido para permanecer.

Quando o porquê fica claro, o esforço muda de forma. Ele deixa de ser um peso e passa a ser parte do caminho. Talvez seja isso que eu esteja aprendendo agora: não a começar menos, mas a começar com mais verdade. Mesmo com medo, vergonha e alafrios que aparecem antes de qualquer coisa que realmente importa.

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