Sobre o que acontece quando a gente se permite

 Hoje, antes de arrumar minhas coisas pra viajar e passar o fim de semana com a minha família — na casa da minha avó paterna, pra comemorar o aniversário dela —, eu parei por uns minutos pra relaxar e assistir um pouco de YouTube. No meio dessa pausa, me deparei com um vídeo de um rapaz dizendo que o ano dele tinha sido completamente diferente do que imaginava. E aquilo me acertou em cheio. Parecia que eu precisava ver aquele vídeo pra ter um empurrãozinho e escrever isso que agora escrevo.

Comecei a refletir sobre o meu próprio ano. Sei que já estamos na reta final e que é natural pensar em como aproveitamos esse tempo — mas acredito que não seja só sobre “aproveitar”. É sobre ter a sensação de que realmente vivemos, de que sentimos tudo o que era possível sentir.

Ao longo da vida, a gente vai imaginando como as coisas deveriam ser — sonhamos com pessoas, lugares, planos e até com o jeito que cada detalhe vai acontecer. Acreditamos que sabemos o que é melhor pra gente. Mas, convenhamos, é a surpresa que deixa tudo mais bonito, mas essa é uma tarefa difícil de se perceber. Pensa só: se tudo saísse exatamente como gostaríamos — se cada situação seguisse o roteiro que escrevemos na cabeça, se cada pessoa fosse do jeito que idealizamos — a vida perderia a graça. Seria previsível demais, sem esse encanto que só o inesperado traz. No fim das contas, o que torna a vida especial é justamente o que a gente não planeja, o que surge do nada e muda tudo.

Quando o ano começou, eu tinha certeza de que o grande destaque seria o Farfalle Aromas, meu pequeno empreendimento. Achei que esse seria o meu foco: trabalhar, crescer, aprender mais sobre o negócio, sobre empreendedorismo… e quem sabe até ganhar meus dólares kk. Mas, como a vida adora surpreender, ela veio e mudou completamente os planos, mas a grande diferença é que não lutei contra esses planos que a vida trouxe, ou melhor, de início lutei para permanecer da maneira que EU queria que acontecesse, mas depois de um tempo, deixei ser levada para os novos caminhos, aceitei o novo. É aquela coisa: o que parece “fora do roteiro” pode, na verdade, ser o melhor capítulo da história. Hoje eu sorrio só de pensar que, se tudo tivesse acontecido do jeito que planejei, talvez eu tivesse perdido coisas que agora são as mais importantes pra mim.

 Saí de lugares onde eu me sentia confortável, segura — mas sabia, lá no fundo, que queria mais. Deixei o conhecido pra me abrir ao novo… e, de certa forma, a mim mesma. Saí da cidade do interior e fui estudar em outro lugar - cheio de novas descobertas. Mesmo sendo perto de casa, parecia um mundo completamente novo. E que mundo bonito! Fiz amizades incríveis, conheci pessoas que despertaram em mim interesses que eu jamais imaginei ter. De repente, me vi gostando de assuntos que antes eu nem olhava. É engraçado como as pessoas têm esse poder de acordar partes nossas que estavam adormecidas. Comecei a trabalhar, e isso também foi marcante. Ganhar meu próprio dinheirinho, fazer algo que eu realmente gosto, me deu um orgulho enorme — ainda mais porque, na minha cabeça, o dinheiro viria do Farfalle Aromas. Foi aí que aprendi que dá pra levar as coisas com leveza, mas ainda assim com seriedade (se é que isso faz sentido pra vocês).

    Fiz tudo com o coração, mas sem aquele peso de querer controlar o resultado. E, curiosamente, foi assim que as coisas mais legais aconteceram: quando eu simplesmente parei de planejar tanto. Deixei que os sentimentos me levassem — e eles me levaram pra lugares incríveis, alguns físicos, outros internos. Viver sem tantas regras, sem tantas amarras, foi libertador. Aprendi que não preciso ter todas as respostas, que às vezes basta estar aberta ao que vem. Fui menos dura comigo, vivi mais, e me permiti sentir e experimentar sem tanto medo. Apenas deixei o rio me levar — pra novas águas, sejam elas cristalinas, quentes ou frias.

Mas, como todo ciclo, esse também teve despedidas. Pessoas chegaram, outras voltaram, e algumas — que eu jurava que estariam comigo até o fim — simplesmente seguiram outros caminhos. E tudo bem. Nem todo mundo vai caminhar ao nosso lado pra sempre, mas cada pessoa tem um papel importante na nossa jornada. Algumas presenças marcam pela intensidade do momento, o aprendizado recebido e não pela duração — e isso é bonito também.

E olha, até o vestibular entrou na lista das “coisas que eu nunca pensei que aconteceriam”.Fui fazer a prova sem nenhuma pretensão. Lembro de fechar os olhos antes de começar a prova e mentalizar boas energias pra quem realmente queria passar e precisava daquilo, mas mau sabia eu que seria uma dessas pessoas, afinal, eu achava que não era pra mim — meu plano era outro. Mas a vida, mais uma vez, me mostrou que o inesperado tem planos melhores que os meus. Hoje, olhando pra trás, vejo que tudo aconteceu do jeito que precisava acontecer — mesmo que não tenha sido da maneira que um dia imaginei. Mas a Antonia precisava viver e aprende isso.

 Agora, enquanto me preparo pra pegar a estrada e ver minha avó, me pego sorrindo com tudo isso.

                                           ...

Ah, e como não publiquei esse texto no dia em que comecei (por causa da viagem), terminei ele hoje — e, pra fechar com chave de ouro, ainda tive um sonho que se encaixa perfeitamente nisso tudo, então por isso vou contar o que me lembro pra vocês.

Sonhei com algo muito doido, que parecia uma mistura de um jogo com um episódio da série Manifest. No sonho, o lugar onde estávamos começava a ser destruído, havia uma tempestade e todos se uniam, ficando juntos, com a chuva caindo sobre nós. De repente, apareceram anjos — mulheres, na verdade — e, no começo, achamos que elas não eram do bem, até que algumas pessoas começaram a conversar com elas e percebemos que eram nossa única chance de nos salvarmos. Para sair dali, precisávamos resolver a nossa própria tempestade. Quando uma delas chegou perto de mim, eu não fazia ideia de qual era a minha tempestade. Mas ela me disse algo que ficou na minha cabeça: que eu não devia encarar a vida de forma linear, como se fosse um jogo com fases a serem desbloqueadas. Ela quis me mostrar que a vida não é uma linha reta — nem sempre o presente interfere no futuro do jeito que a gente imagina.    

Acordei com a sensação de ter saído de uma sessão de terapia kk. Foi engraçado o quão real aquele sonho pareceu

E, pensando bem, esse ano me mostrou exatamente isso: que as melhores coisas acontecem quando a gente se permite ser surpreendido. Que sair da zona de conforto, confiar no tempo e se abrir pro novo é o que nos faz crescer. Que o que parece desvio, às vezes, é o destino.

Por isso, esse ano — mais do que qualquer outro — mereceria o título de “coisas que eu nunca pensei que aconteceriam", mas talvez o que mais combine seja: "sobre o que acontece quando a gente se permite". Porque foi nele que eu descobri que o melhor da vida mora exatamente no que a gente não planeja… mesmo quando, por um breve momento, parece que estamos vivendo uma tempestade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Entre a bagunça e as palavras

Efeito borboleta, destino e coincidências, existem?